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segunda-feira, 6 de fevereiro de 2012

CORÓ - PRECURSOR DA RECICLAGEM

Estou me referindo a uma época – final dos anos 50 e início da década de 60 – em que a cidade de Ourinhos convivia com uma imensa vala, também conhecida como voçoroca, ao que parece provocada pelas águas fluviais que escorriam ao nível das ruas – ainda desprovidas de galerias - descendo da parte alta até  desaguarem nas terras do senhor Ângelo Christone, no final da rua Pedro de Toledo.

Partindo daquele ponto, ou ali terminando, o “buracão” como a população denominava aquela área degradada da cidade, serpenteava o perímetro urbano já bem povoado, esgueirando-se pelos fundos dos quintais das residências, interrompendo ao se aproximar da antiga rua Goiás – hoje, Narciso Migliari – para depois retornar, solapando parte do terreno da Padaria Itoda, até alcançar a esquina da rua Brasil com Gaspar Ricardo.

Com essa introdução, para compreensão dos eventuais leitores, talvez já possa localizar e descrever a propriedade do senhor Coró, então  localizada na esquina da rua Goiás com a Visconde do Rio Branco. Ali, num terreno amplo – bem na beira do “buracão” - aquele homem, de hábitos e aparência rudes, vivia com sua numerosa família numa casa de construção bem rústica e no entorno da residência desenvolvia sua atividade de acumular todo tipo de material descartado pela população, além de manter animais domésticos, galinhas, porcos cabritos, cavalos e outros.

Por certo a aparência não era nada agradável, evidente que produzia algum desconforto, não só para as pessoas que ali habitavam, particularmente as crianças constantemente sob o risco de cair na vala – disso logo superavam, pois a diversão dos mais crescidos era transpor o “buracão” pendurados ( trocando de mãos ) na canalização de distribuição de água suspensa entre suas margens – ou se contaminar com aquela sujeira, como também aos vizinhos expostos à proliferação de insetos e bichos peçonhentos. No mesmo quarteirão, descendo em direção ao cemitério, já existia a “coloninha” - uma série de casas em construção de madeira, suponho destinadas às primeiras famílias trazidas para o centro urbano pelo êxodo rural –  o primeiro conjunto de casas populares construído na cidade, onde surgiram grandes craques do futebol ourinhense.

Além de acumular ferro-velho, vidros, latas, papelão e outros materiais, certamente destinados a venda no atacado, o senhor Coró ainda se esmerava em transformá-los em utensílios de uso doméstico – como era o caso das latas de óleo, depois de recortadas suas partes planas eram ajustadas dando lugar a um recipiente no formato de tacho. Cabia a um dos seus filhos – bem mais que um adolescente, quase um jovem – sair pelas ruas oferecendo os tachos de lata. Em um deles sempre levava sabão de cinza, moldados com se fossem bolas, produto também de fabricação familiar, muito aceito pelas donas de casa para alvejar as roupas sempre impregnadas pela terra rocha de difícil remoção. Era comum vê-lo parado ao lado de um “campinho”, mais no centro da cidade, apoiando sua mercadoria em uma das coxas, suspensa pelo pé apoiado no joelho da outra perna (?), observando, com o olhar ávido, os meninos jogarem futebol.

Por mais que a família se movimentasse no afã de buscar o sustento para todos, era evidente que as condições de vida daquelas pessoas não se aproximava do ideal – ainda assim mantinham-se ali agrupados. Lembro que uma das filhas do senhor Coró, uma moça simpática e agradável, ainda bem jovem passou a frequentar a Igreja Metodista. Com seu sorriso largo e forma amistosa de se relacionar logo se integrou àquela comunidade – muitos anos depois, num desses eventos familiares, a reencontrei, então uma senhora, mostrando a mesma disposição de outrora e igual alegria de viver.

Não custa lembrar que na mesma época outras pessoas já se ocupavam da recuperação de materiais inservíveis – os conhecidos ferro-velhos, não confundir com os atuais famigerados “desmanches”, estes nem sempre voltados para uma atividade lícita – como era o caso do “Tonico Soares, na rua Duque de Caxias, e do Raimundo Barrueco, misto de empresário e policial voluntário.

Resta lembrar que personagens como o senhor Coró e outros, como o velho e simpático italiano que diariamente percorria as ruas da cidade, de corpo franzino, alquebrado pelo tempo, sempre trazia no braço sua cesta de vime e anunciava a compra de vidros descartáveis cantando “Torori-Tororó” - no que era acompanhado pela criançada – merecem registro na nossa história e com essas lembranças rendo-lhes essa homenagem!

segunda-feira, 7 de novembro de 2011

Quartel na Praça

Em minha visita mensal à cidade de Ourinhos - domingo último - pude observar, do hall da agência do Santander, para constatar que as obras na Praça Mello Peixoto caminham a passos de cágado. Com exceção de um prédio - pela estrutura, sugere mais de um pavimento - destinado à Polícia Militar. Os demais equipamentos não parecem seguir o mesmo ritmo, parece não existir cronograma para devolução da praça à população. A imprensa local repercutiu o problema, sem outras considerações cabíveis. Talvez estejamos na iminência de assistir mais um daqueles aditivos contratuais tão em voga nas obras públicas, ainda que previstos em lei, sempre geram especulações. Mas, a construção de um posto avançado da PM - aceitável até a instalação de uma guarita ou até mesmo um quiosque - no meio da principal praça da cidade para simples observação, e eventuais, informações, nos parece um exagero e invasão, através da  sua ocupação indevida, de um espaço público destinado exclusivamente ao convívio da população. Esperamos que a construção não reserve espaço para estacionamento de viatura - já que até pouco tempo era comum os policiais ali de serviço estacionarem no gramado, junto aos canteiros de flores. Considero que a iniciativa não se justifica, até mesmo porque a permanência dos policiais no local não será ininterrupta e, supondo a justificativa de atendimento ao público, pode ensejar igual reivindicação da Polícia Civil. A presença da polícia em local público, principalmente no centro comercial das cidades, é sempre recomendável e esperada - daí reservar um espaço e ali edificar uma unidade policial, concorrendo com sua ocupação original, nos permite avaliar e censurar essa usurpação da área pública. Já assistimos quartel ocupar prédio escolar e outras edificações, mas instalar-se em ponto privilegiado da praça central da cidade se revela uma afronta ao interesse público. Por muito menos, os alunos da USP se mobilizaram e ocuparam o prédio da reitoria daquela universidade - não chegaremos a tanto, mas a discussão do assunto é relevante, até mesmo para ouvirmos opinião contrária!

quinta-feira, 12 de novembro de 2009

Pise, mas não estacione na grama da Praça

Nos idos da década de 70 ou 80, com os filhos ainda pequenos, costumávamos freqüentar as praças da cidade de Assis, onde então residíamos. Durante a primeira gestão do "Zeca Santilli", democrata autêntico, foi dada oportunidade a um jovem engenheiro, adotado como seu diretor de obras. Entre suas iniciativas, ficou marcada a inovação na utilização das praças - por certo, já buscando uma maior freqüência da população - como forma de democratizar o uso do espaço público. Ao invés das placas "não pise na grama", a novidade era a inscrição "pise na grama". Com isso, para contrariedade e tristeza dos zelosos e dedicados jardineiros, algumas praças - como era o caso do jardim defronte o Hospital Sorocabana - passaram a apresentar verdadeiras "trilhas", por onde os usuários cortavam caminho ou até mesmo a transformação do gramado em "campinho" de futebol improvisado. Dias atrás, em visita à Ourinhos no último Finados fui surpreendido com uma nova e inusitada utilização do gramado da Praça Mello Peixoto - à sombra de uma frondosa árvore, uma viatura da Polícia Militar jazia estacionada. Enquanto isso, duas policiais mantinham seu posto de trabalho guarnecido. Embora nada democrático, tampouco ecomendado - havia espaço no leito carroçável - por não se tratar de abrigo seguro para viatura oficial. Algum passarinho poderia macular as cores da corporação, além de clara infringência à legislação de trânsito - suponho que não se tratasse de uma situação de emergência. Apenas lamento não poder instruir com fotografia - a máquina estava no carro, regularmente estacionado na distante rua Altino Arantes, também à sombra de uma árvore.

domingo, 13 de setembro de 2009

Zanirato, a Helenira ourinhense

Ao ler o comentário enviado por Roseli Zanirato, não pude deixar de relacioná-la com um jovem estudante da cidade de Ourinhos - pela simples coincidência do sobrenome. Zanirato, é assim que meu irmão Aureliano a ele costuma se referir com respeito e admiração. Ao recaptular a década de 60 - quando participava da organização dos primeiros sindicatos de trabalhadores rurais, poucos devem se lembrar da SUPRA - lembra que o então secundarista naquela altura já participava dos movimentos estudantis e demonstrava vivo interesse pelas questões político / ideológicas difundidas na época. Mais adiante, o jovem ourinhense também teria se mudado para São Paulo onde, definitivamente, teria se engajado na resistência ao Regime Militar. Ao que me parece, Zanirato seria a Helenira ourinhense - lamentavelmente, ainda sem o mesmo reconhecimento!

domingo, 23 de agosto de 2009

Um playboy orinhense

Sua figura franzina, alquebrada pelo cigarro e consumo excessivo do álcool – certamente teve acesso a outros tipos de drogas – aliada à decadência econômico-financeira de sua família, já não permitiam vislumbrar a intensidade da vida de Antônio Carlos Barbosa. Naquela altura, apenas o cavalo baio, seu animal de estimação, que insistia em manter no quintal da residência, ainda atendia sua vontade.

Mesmo nos dias de hoje, ficava difícil imaginar, em uma cidade do interior – bem provinciana, como era Ourinhos nas décadas de 40 e 50 – encontrar um personagem como Antônio Carlos. Seus pais, Oscarlino e Emília, empresários de sucesso, foram donos do Bar e Restaurante Central e depois de uma Panificadora na avenida Jacinto Sá – como era costume, fizeram todas as vontades do único filho homem, ainda tiveram duas filhas.

Apesar de não formado – situação comum em jovens daquela época - demonstrava razoável cultura, indicando que estudara em boas escolas. Exibia excelente caligrafia e facilidade em escrever e discorrer sobre os mais variados assuntos – quando sóbrio, falava com desenvoltura e rico vocabulário. Gostava de exibir fotografias montado em sua potente motocicleta - daquelas que traziam bolsas de couro nas laterais. Com outros jovens ourinhenses, integrou as primeiras turmas de pilotos formados pelo Aero Clube de Ourinhos – talvez tenha sido um dos seus fundadores.

Por certo a boemia foi sua principal ocupação. Freqüentador fiel da noite ourinhense – existiam bons bares noturnos e invariavelmente as noites terminavam na zona do baixo meretrício – percebia-se claramente que "Toninho Pinguinha", como passou a ser chamado, nunca trabalhou, nem mesmo na panificadora da família, apesar de não desconhecer os segredos do comércio e fabricação de pão.

Em minhas lembranças, Antônio Carlos já não possuía mais motocicleta, tampouco aventurava-se a pilotar e nem mesmo freqüentava o Aero Clube. Raramente saía para cavalgar em seu cavalo "Baio". Mas, quando o fazia, apresentava paramentado de polaina, bota e rebenque. A sua montaria era elegante, em posição ereta e altiva ocupava a impecável sela trabalhada em couro, onde se destacavam os estribos prateados. Ao final da cavalgada, apeava defronte o estabelecimento comercial e num movimento enérgico com o rebenque ordenava e seu cavalo se afastava em direção à cocheira – dobrando a rua Gaspar Ricardo, alcançava a porteira do quintal.

Mesmo debilitado, manteve-se na boemia. Já não dispunha de recursos ou disposição física para as noitadas. Ainda assim, o notívago mantinha-se fiel aos seus princípios. Em geral levantava-se depois do almoço e logo depois era encontrado ocupando uma mesa do Bar do Toloto diante de seu "traçado" predileto – mistura de aguardente com Undemberg, substância amarga e de cor escura – que ingeria pacientemente, sem pressa, ainda preservando algum requinte.

Salvo quando discutia com seus pais, momentos que lhes atribuía culpa pelo seu desatino – situação comum em muitas famílias - Antônio Carlos era incapaz de proferir palavras de baixo calão ou comportar-se de modo inconveniente perante alguma senhora – as crianças o adoravam pelas brincadeiras ingênuas ou provocações, Luizinho Tanaka era uma das suas vítimas, talvez por perceber suas birras infantis, já que éramos todos vizinhos.

Mais adiante, após vender a panificadora, o senhor Oscarlino manteve-se exclusivamente na condição de cotista da Cervejaria Brahma – lembro que as garrafas chegavam embaladas individualmente revestidas em palhas e acondicionadas em sacos de linhagem - e responsável por sua distribuição na cidade. Essa atividade teve continuidade nas mãos do seu cunhado – o admirado e respeitado capitão Benedito – depois provedor da Santa Casa local.

A família mudou-se então para a rua Gaspar Ricardo, depois da rua Amazonas, e o nosso playboy encerrou os seus dias, sem perder a postura e o bom humor, tomando a sua mistura no Bar do Tanaka – onde também se degustava o melhor sorvete de Nata do mundo - e, quando encontrava algum ouvinte, certamente discorria sobre suas aventuras da juventude.

Ao contrário de outros playboys, como foi o carioca Jorginho Guinler, o ourinhense Antônio Carlos, por discrição ou pudor, não falava de suas aventuras amorosas e também não se gabava das belas mulheres que conheceu!

Talvez seus contemporâneos possam fazê-lo!

quarta-feira, 13 de maio de 2009

Oncinha, herança degradante para Ourinhos

Ainda que à distância, venho acompanhando a evolução da Caninha Oncinha - a conheci como Ivoran e, quando criança, brinquei no seu interior. A expansão de suas instalações pelas áreas adjacentes sempre me causou alguma preocupação - talvez uma certa indignação, por acreditar que o mais racional seria buscar um espaço mais seguro distante do centro urbano. Por décadas, a cada visita à Ourinhos - particularmente, à avenida Jacinto Sá, onde vivi - deparava com a degradação das cercanias daquela indústria. As casas residenciais e os imóveis comerciais, incluindo o belo Jardim da Da. Rosa e o Bar do Fagá, foram desparecendo e davam lugar a um desprezível paredão. As ruas da região se tornaram ociosas, por ausência de moradores e usuários, passando a ser utilizadas como estacionamento exclusivo para os caminhões utilizados no transporte de sua produção, enquanto seus motoristas davam outra destinação ao espaço público. Suponho que o grupo empresarial manteve, por mais de cinco décadas, considerável área na zona rural, bem próxima da Rodovia Raposo Tavares, onde poderia instalar sua unidade industrial, sem prejuízo, temor ou desassossego para os moradores do centro da cidade - infelizmente, preferiram utilizá-la parcialmente com alguns toneis para armazenamento de matéria prima. Por essas razões, a notícia do aventado fechamento daquela empresa não me surpreende - espero que não ocorra, para o bem de seus empregados e fornecedores - apenas reforça a indignação pela falta de visão de seus percursores, cuja herança se reduzirá a nova área degradada na cidade.

quarta-feira, 30 de abril de 2008

Parece pouco agregador

*• Região* *PSDB tem mais de um candidato a prefeito* *OURINHOS — Guaracy
Nascimento diz que Toshio Misato ainda não disse ao partido se vai disputar a
reeleição e descarta candidato a vice indicado pelo
PT
*

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O tucano Guaracy Nascimento*A candidatura à reeleição do prefeito Toshio Misato (PSDB) não está confirmada, há pretendente para disputar a prévia da legenda, Belkis Fernandes enfrenta resistência como candidata a vice e há restrição à aliança com o PT. Em resumo, esta é a opinião de Guaracy Nascimento, coordenador regional do PSDB de Ourinhos. Na executiva municipal, ele ocupa o cargo de vogal. A seguir, os principais trechos da entrevista concedida na quinta à
noite.

*DEBATE* — /Há possibilidade de o PSDB lançar uma chapa “puro sangue” para
concorrer às eleições municipais?

/*Guaracy Nascimento* — Há. O Toshio volta de viagem no dia 27, quando vamos conversar e definir quais são os candidatos. É preciso saber se ele vai ser candidato, pois até agora o Toshio não disse isso. Dentro do partido, há mais gente que manifestou o interesse de disputar a eleição [a prefeito]. Se o Toshio realmente quer, temos que fazer gestão para acomodar os outros interesses do partido. Queremos saber se vamos tratar desses interesses com Toshio ou com outro candidato. O certo, porém, é que o PSDB vai ter candidato próprio na eleição. Não sendo Toshio, fica tudo diferente quanto às composições. Sendo Toshio o candidato, está mais ou menos sossegado. Ele é uma liderança que une diversos partidos, não só o PSDB. Não sendo ele, vai dar um nó em muita gente que só vê o Toshio como líder político em Ourinhos.

*DEBATE* — /Se Toshio for candidato, o vice seria necessariamente também do
PSDB?/

*Guaracy* — Não necessariamente. Temos interesse de uma participação mais
efetiva do PSDB na administração do Toshio na próxima gestão. Na do Toshio ou de quem for o candidato. O PSDB tem vontade de participar da administração
municipal, seja quem for o prefeito.

*DEBATE* — /Mas o PSDB já não participa do governo?/

*Guaracy* — Representativamente não.

*DEBATE* — /Como seria essa participação mais efetiva?/

*Guaracy* — O PSDB tem projetos na área da Saúde e em Educação. Políticas tucanas não estão sendo desenvolvidas na gestão do Toshio. Não é questão de participação para ocupar cargos. Não é fazer coisas: é contribuir, participar, sugerir e discutir. Não necessariamente ocupar cargos, mas ser ouvido. Tratar de políticas municipais dentro do partido. Isso não tem acontecido.

*DEBATE* — /Existe discussão no PSDB de que o vice sairia também do partido, mesmo o Toshio tendo um arco de aliança com outras legendas?/

*Guaracy* — Com certeza... Preciso responder de uma forma que não possa chocar...

*DEBATE* — /Vou colocar lenha na fogueira: é possível o PSDB aceitar o candidato a vice do PT?/

*Guaracy* — Há ingredientes que dificultam demais uma coligação com o PT.
O PSDB e o PT estão correndo em raias diferentes. Não há como juntar dois
partidos que estão se bicando e não se entendem dentro de um projeto político.
Uma coligação em Ourinhos seria meramente eleitoreira, já que os interesses dos
partidos são divergentes. Não dá para juntar.

*DEBATE* — /O governo Toshio tem recebidos verbas federais, com recursos do PAC?

/*Guaracy* — Ourinhos está no Brasil. O presidente dos ourinhenses é também o Lula.*

DEBATE* — /Mas se discute a paternidade da obra: se é conquista do Lula pelo PT ou do prefeito.../

*Guaracy* — Cadê as obras? Que se faça. Pode dar a paternidade, mas
que se dê também a maternidade. O importante é que as obras saiam. O PAC é
empréstimo: Ourinhos vai ter que pagar por esses investimentos, pois não é a
fundo perdido. Houve gestão política com participação do Arlindo Chinaglia para
que o empréstimo da CEF fosse efetivado, mas Ourinhos vai ter que pagar. No
passado, o Aldo Matachana fez o empréstimo do Projeto Cura que Ourinhos ficou
pagando por muito tempo. É a mesma coisa. Essa ousadia é do prefeito, que vai
comprometer parte dos recursos durante muito tempo da gestão dele e das futuras gestões.

*DEBATE* — /Isso não poderia facilitar o acordo PSDB e PT?/

*Guarcy* — Isso é um pouco mais difícil. Não vou dizer que é impossível. Até acho que o PT vai marcar posição na eleição municipal. O partido deve lançar o Toninho porque é a figura mais representativa do grupo e tem trabalhado trazendo
recursos para a cidade como assessor do deputado Arlindo Chinaglia. A intenção é
tornar o nome do deputado petista conhecido na cidade para as futuras pretensões eleitorais. Isso é natural e está correto. Mas daí dizer que, em função disso,
se justifica uma dobradinha no município, há uma enorme distância, Mais
importante para a gestão do Toshio tem feito o pessoal do PMDB e dos demais
partidos que participam da administração. Esse pessoal vai ficar de lado para se
favorecer um representante do PT na coligação? Não é justo.

*DEBATE* — /O PSDB não descarta realizar prévias por ter mais de um candidato a prefeito?/

*Guaracy* — Não. Vamos fazer todo o esforço para que não haja necessidade de disputa, mas vamos garantir a legitimidade dos interessados. Tem um e outro [candidatos] que deverão apresentar um projeto para ter seus nomes submetidos à convenção. Mediante avaliação e entendimento dos convencionais, escolhe-se quem será o candidato do partido. Então, a disputa interna não está descartada e pode ocorrer em junho.

*DEBATE* — /Nem candidatos a vereador está garantido?/

*Guaracy* — Não tem mais candidatura nata. Os novos filiados sabem, com todas as letras, que esse assunto foi tratado em reunião interna do PSDB. Deixamos claro para não restar dúvida. A legenda é concedida pelo partido e o mandato é do partido. Isso é fidelidade partidária. Amanhã e depois, por uma atitude de infidelidade, não concordância com o partido ou de uma ação que contrarie o partido, há possibilidade até de expulsão.*DEBATE* — /O Toshio não avisou o PSDB que tem interesse pela reeleição. Isso não seria para se poupar nesse período pré-eleitoral?/

*Guaracy* — O Vadinho comentou alguma coisa da candidatura e o
Celso Cruz já falou que ele estava fazendo campanha antecipada. Talvez por causa
disso o Toshio tenha esse cuidado de dizer que não é candidato. Internamente,
porém, ele tem que falar que é candidato. Aí ele será informado que existem
outras possibilidades de candidaturas.


*DEBATE* — /A Belkis Gonçalves admitiu que pode disputar a eleição a vereadora?/

*Guaracy* — Ela é vice, mas também secretária do Desenvolvimento do Bem-Estar Social. O vice tem que ser vice; secretário tem que ser secretário. O vice tem que apoiar o prefeito e não ficar em casa. A atuação tem que ser conjunta com todas as secretarias. Se o prefeito viaja, o vice fica recepcionando e sabendo das coisas que estão acontecendo no governo. Não pode ficar restrito a uma secretaria. A Belkis é um bom nome, mas acho que podemos pensar em outro. Não precisa ser necessariamente do PSDB e nem do PMDB. Tem que estar filiado a algum partido político. O improvável é que seja do PTB. Outra dificuldade é o vice ser do PT. Fora esses dois partidos, pode sair candidato a vice de qualquer um dos aliados.

*DEBATE* — /O PSDB já tem os nomes a vice?/

*Guaracy* — Já tenho candidato, em tese, para prefeito e para
vice. Agora vamos ver os outros nomes que os partidos vão oferecer. As
discussões sobre coligação e candidaturas são decisões partidárias. Não é
[decisão] de gabinete. O PSDB não delega a terceiros essa decisão.




A entrevista do experiente dirigente "tucano", revela uma pessoa pouco preocupada em agregar forças ao redor do candidato do seu partido. Não garante nem mesmo o direito do atual prefeito buscar a reeleição, respeitando o momento que julgar oportuno, dentro no prazo estabelecido pela lei eleitoral - embora reconheça tratar-se de "tucano de alta plumagem". Ainda assim, o incita a tomar uma decisão, sob pena de assistir a postulação de outros pretendes ao cargo. Curiosamente, depois de quatro anos da gestão "tucana", vem a público reclamar da pouca participação do PSDB na administração municipal. Soa, ainda mais estranho, a cobrança na forma de crítica, dirigida à vice-prefeita, que por sinal não pertence ao seu partido. Também não parece prudente descartar de plano algumas possibilidades de coligação, à distância demonstra não dispor da necessária habilidade política - salvo se estiver blefando ! Ao incauto. sua entrevista poderia revelar que o PSDB dispõe de um quadro invejável em Ourinhos e de tal modo expressivo que poderia formar a qualquer momento uma chapa "puro sangue". Ainda que se respeite a história do PSDB ourinhense e reconheça seu potencial político, seria oportuno indagar:- Nesse quadro sugerido pelo coordenador do partido, qual seria a chance de vitória do candidato "tucano"?

quinta-feira, 27 de março de 2008

Colecionador de Gibis

Recentemente o “Estadão” trouxe reportagem sobre os “comics hunters”, que se traduz nas pessoas que guardam o prazer de preservar as histórias em quadrinhos – algumas fazem desse deleite um meio de vida e outras as mantém como vício, chegando a dispender altas somas para adquirir exemplares raros – evidente que se revelam, aos olhos da família e do observador comum, como indivíduos excêntricos.

Esse registro, como outras matérias recorrentes, remexe com o baú das minhas lembranças de uma infância rica de passagens, hábitos, pessoas e lugares, dando lugar a mais um texto - desses que me permitem reproduzir, nem sempre com a fidelidade devida, situações e personagens - com a liberdade de expressão permitida aos incautos.

A primeira imagem é da fila do matinée, do Cine Ourinhos, nas tardes de domingo. A competição já se inciava antes da abertura das bilheterias – era disputado o primeiro lugar da fila - presumo que ainda existam as mesmas portas de ferro, que corria numa espécie de trilho. Ali aconteciam as vendas e trocas de gibis – do Mandrake, Fantasma, Flash Gordon, Cavalheiro Negro e outros - muitos já com suas capas um tanto rotas, isso pelo leitor ávido da novidade.

Sem dúvidas, essa experiência se traduzia nas primeiras lições da mercancia. Cada um estimava preço da sua mercadoria, sempre procurando obter o melhor resultado – infelizmente, não levei esse aprendizado para a vida real - nunca fiz bons negócios, até hoje não consigo vislumbrar uma boa oportunidade.

Mas esse interesse pelos gibis, certamente contribuiu para desenvolver o prazer pela leitura – adquirido como hábito, uns bons anos depois - e, principalmente conhecer verdadeiros “comics hunters” pessoas admiráveis e que se revelavam em profissionais capacitados, cidadãos respeitados e bons chefes de família, apenas reservavam algum tempo (e dinheiro) além do espaço em suas residências - muitas vezes a revelia ou contragosto da esposa – para cultivarem o hábito da leitura e manutenção de belas coleções de gibis ou revistas em quadrinhos.

Acho que já contei aqui sobre os meus avós maternos, donos de uma colchoaria na rua Paulo Sá, esquina com Euclides da Cunha. Ali trabalharam figuras inesquecíveis - Alípio, penso que se tornou policial rodoviário; “Taquinho”, lateral esquerdo do Operário e o senhor Jaime, cuja história de vida é de uma dignidade exemplar - entre eles um colecionador de gibis.

Suponho que o senhor Jaime havia chegado há pouco na cidade e com sua família foi morar na então longínqua chácara do meu tio Octávio Cristoni, - fundos do cemitério - enquanto trabalhava na Colchoaria Gonçalves – lá nos altos a cidade.

Ainda era bem jovem, com respeitável porte atlético. Isso não o impedia de ser uma pessoa amável, homem de fala mansa, educado e dotado de uma sabedoria incomum - chegava a se estranhar fosse ele colecionador de gibis e seu leitor contumaz – qualidades que o levaram a se tornar respeitado e admirado cidadão ourinhense.

A par de seu trabalho de colchoeiro, logo se integrou ao Esporte Clube Operário, como massagista, dentre as experiências que já que trazia na sua bagagem. Como atleta, tinha o judô como seu esporte preferido. Não demorou a compor o grupo de judocas que se exercitavam sob o o comando do Kodama, então alfaiate na rua Gaspar Ricardo, em locais improvisados, como o armazém da Cia. Prado Chaves – admirava sua habilidade saltando corda para se aquecer - onde o tatame dividia espaço com pilhas de sacarias de cereais.

Voltando ao matinée do Cine Ourinhos, num certo domingo, ao disputar um lugar na fila, acabei discutindo com o “Cachimbo”, outro menino, que se tornou craque no futebol - freqüentador do campo do Operário, desde cedo exibia habilidade incomum, sua jogada predileta era a bicicleta, que executava com perfeição - culminando com uma pretensa “briga” no interior do cinema.

Estava propenso a evitar o meu desafeto, mesmo porque nunca fui “bom de briga” – ao contrário de ocupar as primeira carteiras junto da tela, como era costume – fui me acomodar no balcão. Voluntária ou involuntariamente, o meu oponente teve a mesma idéia. Instigados por amigos comuns, acabamos nos engalfinhando – perigosamente junto ao parapeito. Não chegamos a correr nenhum risco, pois logo o senhor Tufi, bonachão lanterninha, aproximou-se e colocou ambos para fora do cinema – sob ameaça de suspensão – sem mesmo ouvir nossas justificativas. Engraçado que na rua, ao invés de darmos seqüência ao embate, cada um foi para o seu lado, lamentando a perda do seriado do “Flash Gordon”, como episódio a cada domingo.

Quanto ao senhor Jaime, este continuou sendo um exemplo – tenha certeza que em muitos momentos da minha, foi nele que me espelhei - retomou seus estudos em cursos noturnos que surgiam na cidade. Mais adiante prestou concurso para o correio, tornando-se funcionário da agência da cidade. Mesmo à distância, sempre procurei saber do colecionador de gibis. Fiquei sabendo que conclui com brilho a Faculdade de Direito e, pelo que sei, já que não mantivemos mais contato, tornou-se respeitável operador do direito.

Fica a lição sobre o hábito da leitura, ainda que despertado por obras sem valor literário – outras, jocosamente, são denominadas de subliteratura – não deve ser desprezado, pois mais adiante haverá de desenvolver o senso crítico e conduzir a leituras de melhor qualidade e conteúdo significante, ou não!

quarta-feira, 5 de março de 2008

A simplicidade e eficiência do Sd. Jacinto

O esmero com o uniforme. Sapatos sempre engraxados, metais brilhando. Barba feita e cabelos aparados. O quepe ainda era um acessório obrigatório no traje do Policial Militar e destacava o garbo na apresentação do soldado Jacinto - /* como o soldado Brasil, personagem da singela novela “Desejo Proibido”, exibida por volta de 18:00 hs., também é um afrodescendente.*/

Jacinto, embora dedicado ao seu ofício e fiel cumpridor das missões que lhe eram confiadas, nunca perdia a calma e a mansidão, fruto da criação no meio rural – /como a maioria da população brasileira/ - muitas vezes não compreendidas por seus superiores e confundida com alguma limitação no seu nível de compreensão e discernimento.

Não me lembro de tê-lo visto sentado, ainda que nos intervalos do seu turno de guarda na cadeia pública. Parecia estar sempre pronto a perfilar-se para saudar um graduado com a pertinaz continência. Com isso, a par de sua simplicidade, estava sempre atento e observando com acuidade incomum o que passava nos corredores e circunvizinhança da unidade policial. É verdade que muitas vezes, sua imaginação fértil, criava situações inverossímeis, que não hesitava em descrever como
possíveis de ocorrer.


Suponho que vivia com os pais, já bem idosos. Apesar da idade, era um policial experiente, já contava com três ou quatro qüinquênios, havia apenas um assunto que o incomodava. Esquivava-se de falar de sua vida amorosa. Quando indagado sobre namorada, ao contrário do Sd. Brasil, logo se esquivava do assunto, justificando sua responsabilidade com os pais e dissimuladamente abandonava a conversa.

Sua retidão na vida profissional e particular deve ser reconhecida e sempre destacada como sua principal qualidade. Apesar de contar com alguma reserva de seus pares e, principalmente, dos seus superiores - /*trago na lembrança seu caminhar lento e seguro pelos corredores da cadeia, compenetrado na vigilância ou integrando, com seu porte altaneiro, o corpo de policiamento em campos de futebol - */não há como negar/* */que cumpria as ordens e as exercia com exagerado cuidado.

A simplicidade, sua aparência calma e singela, longe da figura caricata, atabalhoada e completamente atrapalhada do personagem Sd. Brasil, certamente levaram a carreira do Policial Militar Jacinto a um desfecho digno - / /*aliás*/, //* não tenho registro da ocorrência de fuga de preso durante o seu turno de serviço, tampouco a prática de algum ato que o desabonasse como Policial Militar*/* * - sempre dedicado aos valores da sua corporação e exemplo de superação, dedicação e honestidade !

quarta-feira, 13 de fevereiro de 2008

O segurança orinhense

Embora houvesse alguma preocupação com a segurança - o furto de galinha e de outros animais era comum - ainda não existia essa fobia por nos manter a salvo da ação de marginais. Tampouco existiam empresas de segurança ou agentes do poder público dispostos a emprestar suas horas de folga e experiência profissional para garantir a segurança patrimonial e pessoal do cidadão, da sua família e da sua empresa.

Eram poucas as empresas que mantinham um vigia noturno zelando por suas instalações. Além da reduzida força policial, a cidade contava apenas com alguns vigias noturnos autônomos. Penso que o voluntário se propunha a manter vigilância sobre determinadas ruas mediante mensalidade paga, também voluntariamente, pelos moradores da área. O apito estridente soando pelas noites ourinhense dava conta da presença do guarda noturno.

Por ocasião de eventos, em geral esportivos, sempre havia uma pessoa de confiança da diretoria ou organizador cuidando para que não houvesse “penetras”. A maioria eram moleques que se dispunham a “vazar” através das cercas e muros que vedavam precariamente os estádios do Operário e do Ourinhense. Nessas ocasiões já aparecia o guarda noturno fazendo “bico” durante o dia, com sua farda caqui, ou se contratava um “saqueiro”, homens fortes que faziam o transbordo de mercadorias dos caminhões para os vagões da ferrovia – impunham respeito, aliás como ocorre agora com os seguranças das casas noturnas..

No campo do Ourinhense, durante os jogos de domingo à tarde, quem se atrevesse a “vazar”, inevitavelmente ia deparar com o temido “Pescocinho”. Negro forte, desses atarracados sem muita altura, além dos braços musculosos, ainda carregava um cajado para dissuadir os incautos. Segundo a lenda, seu apelido decorria do pescoço curto e a cabeça pendida para um dos lados, por causa de um acidente de trabalho – ao amparar um saco de cereal de 60 quilos (pico de trinta*) os braços fraquejaram e sentiu-se na obrigação de sustentar a carga na cabeça - manteve o orgulho de não deixar a mercadoria cair, mas acabou sofrendo as conseqüências do ato impensado. Ainda assim, recuperada suas forças, voltou a carregar sacaria nos armazéns então existente ao lado da passagem de nível da rua do Expedicionário / Duque de Caxias. No dia-a-dia era uma pessoa dócil, bem humorada e chefe de família exemplar.


Ao lado de “Pescocinho”, existiram outros saqueiros, personalidades curiosas pela simplicidade ou excentricidade que apresentavam. Ainda no Campo do Ourinhense, como torcedor assíduo, sempre aparecia o “Conde”. Exibia uma disposição incomum. Movido a alguns aperitivos, costumava postar-se no último degrau da arquibancada, em geral vazio por estar próximo do alambrado, e correndo de um lado para o outro mostrava todo seu entusiasmo e aos gritos incentivava o seu time do coração. Anos depois fui encontrá-lo em São Paulo – zelava por uma residência vizinha à casa do meu irmão Aureliano, no bairro do Pacaembu – ainda forte e bem humorado.

Outra figura inesquecível – merece capítulo a parte - foi “Paulão Mentiroso”. Indivíduo alto, de corpo esguio, fala cantada lembrando o caboclo mineiro, com as pernas longas andava sempre apressado. Quando indagado sobre o motivo da pressa, sem hesitar, fazia jus ao apelido respondendo com o ar compenetrado:- “ estou atrás do meu passarinho que fugiu com a gaiola e tudo “. Quando não, falava das suas pescarias:- “numa delas o peixe era tão grande e precisou empregar força que formou uma curva no rio, em outra falava que apenas a fotografia do peixe pesou dois quilos”.

Como registro, merece ser lembrado que os “saqueiros” formavam uma categoria organizada, inclusive possuíam uma sede na avenida Jacinto Sá, ao lado do Bar do senhor Ferreira, próximo da rua Maranhão. Certa noite, levado pela curiosidade da aglomeração no local, deparei com o jovem professor Franco Montoro, exibindo um farto bigode preto, então candidato a deputado estadual pelo PDC, discursando para os atentos trabalhadores – certamente foi eleito e tornou-se a consagrada expressão política nacional.

Sob o efeito da evolução da sociedade brasileira e sua modernização, dentre outras profissões – chapeleiro, alfaiate, tintureiro ... - os “saqueiros” também assistiram sua atividade esvaziar-se. No seu caso foram substituídos pela esteira mecânica, carregadeiras elétricas e transporte a granel, restando apenas a lembrança e saudade dos seus personagens !


* “pico de 30” - tamanho da pilha de sacos de café, milho, feijão ou arroz, formando 30 camadas, alcançava 15 a 20 metros de altura.

terça-feira, 11 de dezembro de 2007

Dinheiro do "Tonico Lista"

Quanto leio que o Jacinto Ferreira de Sá adquiriu as terras de dona Escolástica Fonseca e que parte dessa área acabou dando origem à cidade de Ourinhos, sou tomado pela curiosidade - ou seria indignação? - voltada para buscar a verdade dos fatos. Consta que o dinheiro seria do "Tonico Lista", chefe do PRP, sempre disposto a estender os seus domínios políticos para toda região. Aliás, a atuação política dessa figura execrável haverá de ser melhor contada. Lembro que meu avô Aureliano Antônio Gonçalves, foi alvo da sanha assassina dos capangas de "Tonico Lista". Acabou depois integrando o Partido Democrático, criado por intelectuais paulistas, para fazer frente aos demandos do PRP. Felizmente, estão surgindo informações como a do fazendeiro Hermínio da Cunha Campos, que contribuirão para restabelecer a verdade histórica. "Tonico Lista" foi um homem sem escrúpulo, conquistador barato - dona Guilhermina teria sido assediada ainda com o marido morimbundo - que dominou a região sob a égide do terror. Outras versões haverão de surgir, inclusive sobre o assassinato do indigitado cidadão.

quarta-feira, 14 de novembro de 2007

Os Bares da Estação Ferroviária

Neste espaço, onde tento fazer valer o expressão "reminiscência", que dá nome à coluna, alguns textos atrás registrei a lembrança de bares noturnos que conheci e freqüentei, nos meus primeiros vinte anos, bem vividos na cidade de Ourinhos.

Acabei cometendo, dentre outros equívocos costumeiros, uma sandice com os bares então existentes na estação ferroviária. Eram dois. Um, que pertencia ao senhor Lourdes (lembro apenas do sobrenome do comerciante), dotado de instalações sofisticadas, incluindo área de restaurante. O outro, pertencente ao "Toninho", homem sisudo, cara de poucos amigos, se restringia a um quiosque, montado entre a plataforma da antiga Sorocabana, onde aportavam os trens chegando ou partindo para a Capital e a gare que abrigava os trens da então Rede Ferroviária São Paulo-Paraná-Santa Catarina.

Entre a chegava e a partida dos trens de passageiros, os dois estabelecimentos eram muito concorridos. Percebia-se que o pequeno Bar do Toninho atendia um público mais simples, certamente com menor poder aquisitivo, buscavam muitas vezes apenas por um café quente - ou uma boa dose de conhaque, dos mais comuns - que lhes permitissem aplacar o cansaço ou o enfado de uma viagem sem fim ou amenizando a fome ao consumir pastel oferecido em bandejas ou cesta de vime, em geral atendia homens viajando sozinhos.

Enquanto isso, o Bar do Lourdes, com seus balcões de mármore, oferecia lanches quentes, café com leite - o cheiro do churrasquinho na chapa, levado pela fumaça, tomava as áreas subjacentes - atendendia as famílias com mais conforto e serviço de qualidade.

Uma curiosidade, o Bar do Lourdes também atendia o público externo da ferrovia - essa área permitia que os notívagos dele se socorressem durante toda noite, incluindo a madrugada - quando não existia outra opção até mesmo para comprar cigarros, quiçá para o aperitivo ou lanche.

Quantas noites e madrugadas, debaixo de chuva ou sob frio insuportável, acompanhei meu pai e/ou meus irmãos entregando carne ao restaurante dos trens de passageiros (N.2, N.5...). Hoje esse serviço seria tratado como delivery - se resumia a atender encomendas, feitas através de telegrama nos horários mais incomuns, com a informação de atrasos ou situações não previstas na viagem - que se resumia no reabastecimento de víveres para o preparo de pratos servidos para passageiros ávidos por uma boa refeição.

Como se pode perceber a ferrovia, em cujo entorno vivemos por décadas; permite o registro de seus personagens mais ilustres - como o chefe da estação, exibindo autoridade através do quepe vermelho, telegrafista, feitor das turmas e fiel do armazém; - outros em atividade mais simples - como os "truqueiros", cujo ouvido privilegiado permitia distinguir o som da batida no depósito de ar das composições, detectando eventuais avarias que pudessem comprometer a viagem: além dos amplos espaços - existentes em seus páteos onde brincávamos livremente quando crianças e na adolescência - haverão de reservar boas lembranças para nossa "reminiscência".

domingo, 7 de outubro de 2007

A Real Aerovias e a VASP

Acreditem! Já houve tempo em que as cidades de Jacarezinho e Ourinhos se rivalizaram em muitos aspectos. Ainda hoje a competição entre ambas é ferrenha, principalmente na área de ensino, onde a cidade paranaense ainda detém a supremacia, por sediar importantes unidades de ensino superior público - de reconhecida qualidade.

Em outros tempos, a população de ambas foram equivalentes. A economia dois municípios girava na base da agricultura familiar, com uma indústria incipiente e o comércio atendia as necessidades básicas dos seus moradores. Até mesmo no esporte bretão as cidades mantinham equipes competitivas. A Esportiva Jacarezinho e o Esporte Clube Ourinhense, com embates memoráveis - atentem, eram simples amistosos ou petições não oficiais!

A riqueza da região, aliada à interiorização do transporte aéreo, então promovido pelos governos federal e estaduais, levaram as duas cidades a concorrer também na aviação civil. Enquanto Jacarezinho fazia a conexão aérea interestadual, através da Real Aerovias, Ourinhos recebia um vôo diário da Vasp - ambas interligavam o interior (paranaense e paulista) à capital do Estado de São Paulo.

Lamentavelmente, nos decorrer das últimas décadas os dois municípios perderam vitalidade - evidente a ausência de lideranças expressivas, tanto na política como na área empresarial. Ourinhos, então importante entrocamento rodoferroviário, viu fenecer a expectativa de porta de saída para o Mercosul. Enquanto isso, a terra roxa da região sudoeste paranaense, desviava os recursos públicos e privados na busca de outras culturas, principalmente a soja e o trigo, já que o café perdia prestígio como o consagrado "ouro verde".

Ainda assim, as duas cidades sobreviveram aos infortúnios e hoje buscam, por outros meios, encontrar um futuro promissor para sua gente. É verdade que Jacarezinho perdeu status - já foi considerada a terceira cidade paranaense - não dispõe mais de aeroporto, desabilitado por ter sido sua área invadida por populoso núcleo residencial, tampouco sua ferrovia vem sendo utilizada. Ourinhos, por sua vez vem convivendo com áreas degradas - espaços urbanos abandonados pelas ferroviárias - e outras áreas urbanas vazias e/ou subutilizadas pelas indústrias, tal como cicatrizes produzidas exclusivamente pela especulação imobiliária.

Não só sobreviveram, como se mantém pujantes, cada uma a procura de sua vocação socioeconômica. A cidade paulista, por dispor de pouco território, encontrou na indústria - principalmente na agroindústria - no comércio e na área de ensino, o seu destino promissor, buscando avidamente alcançar 100 mil habitantes.

Mais ou menos no mesmo diapasão, o município paranaense também vem reconquistando o seu prestígio. Seu território permite a exploração de atividades agropastoril - o café ainda representa significativa parcela da sua economia rural, mas a pecuária e principalmente a cana de açúcar dão expressão a esse segmento - também podendo contar com unidades industriais que complementam e dão suporte à sua economia. Mas, o seu prestígio nacional vem da sua rede de estabelecimentos de ensino - fundamental, médio e, principalmente do nível superior - suas faculdades, de caráter público estadual, ganharam ressonância pela qualidade de ensino que ostentam. Com isso, Jacarezinho e sua população obreira - já prenunciando 50 mil habitantes - já podem sonhar com um futuro promissor.

Portanto, é certo que tanto a Vasp como Real Aerovias, como empresas de transporte aéreo, já não existem mais. Mesmo assim, as cidades de Ourinhos e Jacarezinho se mantêm ativas, orgulhosas diante da abnegação do seu povo e prósperas - ainda que não esqueçam da rivalidade, que se resume no respeito pelas qualidades que cada uma detêm, apenas como fruto de uma admiração recíproca!

sexta-feira, 24 de agosto de 2007

Os Filhos do Capitão Pedro

Sempre afável no trato pessoal e no seu cotidiano social. No ambiente familiar revelava uma figura serena, liberal e segura na orientação e educação dos filhos. Em nada confirmava a fama de militar durão na orientação e instrução dos atiradores do Tiro de Guerra, que comandou por décadas. Cultivava com clareza valores de civismo e defendia com ardor os valores nacionais - por vezes intervinha, ora para determinar a posição da bandeira hasteada na estação ferroviária fosse corrigida ou para exigir que o cidadão tirasse o chapéu na passagem daquele símbolo nacional - mas sem perder a razão. O censo crítico aguçado, desprovido da xenofobia então comum em seus pares, tampouco se dispunha a um ufanismo exacerbado.

A sua prole - ao que me recordo - era constituída por quatro meninos e uma linda menina, que certamente se tornaram cidadãos respeitados, não só honrando a dinastia Coppieters, como também levaram consigo a carga de valores morais e culturais - por exemplo, o hábito da leitura era adotado pelos membros daquela família - por ele difundidos na forma de educação.

Curioso que a disciplina e respeito que emanavam daquele círculo familiar não impediam que os filhos do Capitão Pedro crescessem e desenvolvessem como crianças normais. Mantinham intensa relações de amizade com a gurizada do bairro e da escola, participando ativadamente das brincadeiras, esporte e não se furtando das naturais aventuras juvenis - nadar e comer goiaba da chácara do Cristoni ou montar nos cavalos do seu Theófilo - sendo a sede do Tiro de Guerra, ainda na avenida Jacinto Sá, nos períodos de recesso de suas atividades, um local de diversão. Os bancos de madeira eram empilhados num canto e as baionetas se transformavam em nossas espadas, mas com o cuidado de não desembainhá-las.

Acho que Pierre, o filho mais velho, com seu jeito tímido e ar de intelectual, contemporâneo dos meus irmãos Aureliano e Tércio - no antigo Instituto de Educação - não se expunha como seus irmãos Percival, Péricles e Percy. Apreciava mais um papo inteligente, voltado para a literatura e política. Eloina (ou seria Heloisa?), cujo nome era homenagem à mãe dos mais velhos, além da inteligência como herança familiar, seguramente sua meiguice juvenil deve tê-la tornado numa bela mulher.

Além do Pierre, seu irmão Percival foi outro freqüentador assíduo da nossa casa. Com Péricles fui me encontrar apenas mais adiante - como concorrentes para ingresso no antigo Banco do Comércio e Indústria - evidente que sua superioridade intelectual e melhor instrução superaram as minhas parcas qualidades de goleiro do time de futebol do Comind. Depois voltamos a conviver durante o período de instrução no Tiro de Guerra, coincidente na mesma sede onde brincávamos quando crianças.

Depois de reformado, o capitão Pedro Coppieters foi morar em uma confortável casa na rua Gaspar Ricardo - bem próximo do Campo do Nacional - onde a liberdade dos seus filhos foi ainda maior. Era no quintal ou na rua As brincadeiras continuaram a se desenvolver, agora no quintal ou na rua,geralmente tranqüila. Registro que certa feita, manifesta liberalidade do pai-militar, surgiu um par de luvas de boxe - a cor era vermelha - nas mãos da molecada. Então cada oponente usava apenas uma luva. Acabei levando a pior ao me defrontar com um menino canhoto, morador na vizinhança.

Felizmente, a sabedoria e experiência de vida do capitão Pedro não foram desprezadas. Penso que a comunidade ourinhense soube reconhecer e valorizar, não só o caráter do profissional respeitado e chefe de família exemplar, mas suas qualidades de cidadão prestante, tornando-o paradigma das boas causas públicas. Pelo seu exemplo de vida e excelente estrategista, revelou-se em sábio conselheiro, sempre disposto a ouvir e emitir sua opinião a respeito de algum problema ou situação.

Enquanto isso seus filhos, com a mesma liberdade como foram criados, cada uma a seu modo, foram buscando a independência e realização pessoal. Fiquei sabendo, através do meu irmão Aureliano, que o Pierre tornou-se competente e respeitado médico. Infelizmente, nossas passagens pela cidade de Palmital ocorreram em períodos distintos. Gostaria imensamente de tê-lo encontrado. Com ele convivido e cultivado saudável relação familiar. Quanto ao Percival, o mais extrovertido, ingressou no Banco do Brasil, através daqueles difíceis, por concorridos, concursos públicos, onde certamente realizou brilhante carreira.

Logo depois do Tiro de Guerra - turma de 1964 - mudamos para São Paulo e perdi o contato com os Coppieters. Não tive mais notícia do Péricles, para o pessoal mais próximo, o "Chico". O então garoto Percy e a bonita Heloisa (ou Eloina, minha irmã Dinorá insiste nesse nome), como os demais passaram a ser figuras recorrentes em nossas boas lembranças!

quinta-feira, 23 de agosto de 2007

Urias Rocha - Um homem a seu feitio

A sua figura impunha respeito. Um homem de postura altiva, tez amorenada, contrastando com seu bigode e cabelos grisalhos - sempre fumando uma cigarrilha ou seria piteira? - trajando sua costumeira túnica de brim, bem antes do Jânio Quadro adotá-la como traje na Presidência da República.

Levava a sério sua profissão de pintor, com alta competência e especialização. A qualidade do seu trabalho, que desenvolvia na companhia de seus filhos, "Solim" e outros - a prole era numerosa - além de auxiliares contratados, o levava a se envolver grandes empreendimentos, como a pintura do Edifício Bradesco - recém construído.

A família Rocha morava em uma casa de madeira, na rua Pedro de Toledo, que se destacava não só pelas dimensões e extensão do terreno que ocupava, mas principalmente pelo esmero da pintura a óleo, demonstração inequívoca da capacidade profissional das pessoas que nela habitavam. Se não me engano, apenas o filho "Juca" era mecânico - torneiro da Retífica do Koga.

O comportamento do senhor Urias sempre pareceu metódico, sem dispensar curiosa excentricidade. Mesmo madrugando para trabalhar no açougue, nunca notei a sua passagem para o trabalho - como frisei, sempre realizando serviços expressivos em casas elegantes e prédios da cidade - mas, antes do cair da tarde, surgia o "Velho Marinheiro", como um dos personagens surgidos dos romances de Jorge Amado, com a fala mansa e a simpatia lembrando Dorival Caymmi - com seu andar elegante e sempre pressa, aportava no Bar do Fagá para o indispensável deleite.

Jogava bocha a ponto - era um bom ponteiro - mas destacava no jogo de "truco" onde revelava toda sua verve e criatividade. Ainda guardo expressões que lhe eram peculiares:- "sapicuá de lazarento", "mamica de porca velha", "cavalo comedor, cabresto curto" e outras impublicáveis. Quando surpreendia um adversário blefando - o advertia:- "se te surpreendo estais brincando, mas se corro da trucada, estarás me roubando".

A sua fala era calma e pausada, enfatizando um ar de sabedoria - efetivamente a tinha - destilando conceitos e comentários que deixavam seus adversários desconcertados. Enquanto o garoto que a tudo assistia, como que hipnotizado pelo encantamento irradiado pela expressiva figura humana - fixava-se em cada gesto ou palavra.

Ao lado daquele homem brincalhão, o senhor Urias revelava-se um cidadão respeitado - não só na profissão - no âmbito familiar detinha total controle sobre seus filhos, ainda que numerosos os mantinha sob suas vistas e seu exemplo de vida, retidão nos negócios e de caráter, certamente foram qualidades irradiadas para seus descendentes.

Ainda assim, consta que contrariado ou afrontado na sua profissão, perdia aquela doçura e sua elegância se transformava em valentia difícil de ser controlada. Houve ocasião para demonstrar sua capacidade de indignar-se - evidente que seus desafetos não a esqueceram.

Era manifesta sua paixão pelo esporte e seus filhos - traziam, sem exceção, no nome o sufixo indistinguível da origem germânica apreciada pelo pai - não o frustaram, os rapazes eram bons de bola. Desde o campinho do cemitério velho, com o Laércio, filho do carroceiro, Toni, do senhor Júlio Poteiro e outros, até integrarem os grandes times do Esporte Clube Operário exibiram classe e a garra própria dos moradores da Barra Funda. Não tenho notícia se algum deles jogou pelo Ourinhense.

Enfim, o senhor Urias Rocha tornou-se uma daquelas figuras - quase irreal - que povoou por décadas o imaginário do ourinhense ausente e acabou se tornando personagem de suas recordações - agora reproduzidas na forma de homenagem !

terça-feira, 12 de junho de 2007

FAPI - não se emancipou aos 41 anos

Apenas para situar - deixei a cidade de Ourinhos antes do advento da FAPI. Ainda assim, tento me orgulhar quando é anunciada a realização desse mega-evento, que destaca a pujança da nossa cidade e o dinamismo da sua economia. Caso fosse um cidadão comum, o evento - ao ultrapassar a quadragésima edição - haveria de ter encontrado a sua autonomia econômico/financeira/administrativa. Enfim, passaria a viver por conta própria - às suas próprias custas. É sabido que Fapi dispõe de um belo recinto - Parque de Exposição - em área doada (?) para essa finalidade. Recentemente, tradicional família ourinhense doou terreno contíguo para abertura de uma ampla avenida, como forma de facilitar o acesso de veículos às suas dependências. Por outro lado, o seu corpo diretivo - sempre renovado por figuras expressivas do empresariado agroindustrial - vem acompanhando a Fapi desde a sua primeira edição. Infelizmente, dessas pessoas que alcançaram sucesso em suas atividades privadas - muitas se tornaram referência nacional em seus ramos de negócio - não conseguiram tornar a feira uma entidade autônoma e independente. É o caso das festas do peão de Barretos e da cidade de Limeira, dentre outras. Gostaria de estar equivocado, mas as tratativas entre o público e o privado, que antecedem anualmente as suas edições, onde o dinheiro dispendido pela municipalidade com o evento são colocados sem nenhum pudor, sempre em valores cada vez maiores, dão ensejo a certa promiscuidade. Nesses momentos, o administrador público apresenta-se premido pelas circunstâncias - ainda que relutasse, a voz do empresariado tem o seu peso e se impõe, por outro lado, a possibilidade de oferecer alguma diversão à população o agrada politicamente, tornando-o refém de uma situação instalada a mais de quatro décadas. Repito, caso fosse um quarentão, a Fapi seria taxada de fanfarrona ou comparada àquela figura típica de toda família - não trabalha e nem estuda - prefere viver às custas do pai, sem despender o mínimo esforço. Ainda assim, esperamos que os diligentes empresários que se orgulham de promover o tradicional evento, com sua inteligência e perspicácia, haverão de encontrar meios de emancipar e tornar a Fapi autônoma para que consiga, com seus próprios e exclusivos meios, realizar suas feiras sem precisar assacar contra os cofres da municipalidade - combalidos por natureza !

quarta-feira, 16 de maio de 2007

TINTUTARIA - SEMPRE UM BOM PAPO

Muitos hão de discordar, por acharem que eram nas barbearias - hoje cabeleireiros - o local onde se encontrava uma boa conversa e as últimas novidades eram conhecidas, quando a cidade ainda era pequena e as pessoas dispunham tempo para o bom e divertido papo. Realmente, a vida caminhava mais devagar!

Embora não possa discordar totalmente, mesmo porque também freqüentei esse ambiente. Foi no Salão do Xavantes - meu primeiro trabalho, como engraxate - onde aprendi a jogar dominó e ouvi muitas histórias do futebol ourinhense. Ernesto, o barbeiro predileto do meu pai - fazia a sua barba toda semana - era surdo, mas ainda assim permitia uma boa conversa. Foi dele que adquiri a bicicleta da marca Victória, bem conservada e toda enfeitada, mas que deixei sem nenhum apetrecho quando a vendi por ocasião da mudança.

Devo reconhecer que foram das tinturarias que guardo as melhores recordações. O Luiz Tintureiro, na rua Gaspar Ricardo, onde trabalhavam o Juvenil e o "Neguito". Luiz, era japonês diferente, casado e com muitos filhos. Apreciava uma boa cachaça e normalmente era uma pessoa comedida - mas nos domingos de carnaval, enfeitava-se travestido de mulher, inclusive com salto alto e maquiagem, saía a desfilar sozinho pela cidade. A criançada o seguia festejando e recebendo os jatos de lança perfume - refrescante, mas que ardia quando alcançava os olhos.

Ali se conversava de tudo - desde sobre os jogos do campeonato paulista, programas musicais e as últimas "fofocas" do bairro. Também se ouvia "Neguito" querendo demonstrar aptidão para o canto. As vezes ouvia de casa, ele e o Láercio da funerária, tentando imitar Cauby Peixoto, cantando a inesquecível "Conceição".

Outro tintureiro amigo, foi o "Pedrinho", genro do Pedro Danga e cunhado do "Zé do Bar", instalado na rua Antônio Prado - prédio da casa do Pedrotti, Eduardo era nosso goleiro - defronte ao terreno da antiga delegacia de polícia, onde existia espaço para o famoso "Campinho da cadeia-velha", de boas lembranças. Moacir, já quase rapaz, garantia o nosso mando do jogo - se impondo pela força e valentia!

As fotos estampadas na parede do estabelecimento denunciavam que "Pedrinho" era sãopaulino, assim como o "Celsinho Gonçalves", "Nego Maeda" e outros amigos. Era o nosso refúgio para dar as primeiras tragadas em cigarro - garantia de que não seríamos visto fumando. Também ali nos reuníamos para ir nadar no "Perininho" ou simplesmente curtir as tardes ociosas, jogando conversa fora e aguardando a chegada do "dono da bola" para a pelada de todo final de dia.

Ainda existia a tinturaria da família Shinohara , composta de diversos rapazes - todos exímios na profissão - introduziram novos métodos e passaram a utilizar equipamentos mais modernos na arte de passar roupa. Trabalharam por muitos anos na rua Euclides da Cunha ou seria rua do Expedicionário (?). Depois, em prédio próprio, transferiram para a rua Amazonas. Além de bom papo, eram parceiros contumazes no jogo de snoocker, donos de boa tacada e difíceis de serem enfrentados - Massao, o mais velho, sujeito quieto, mas excelente amigo!

A modernidade com suas inovações, acabou por ignorar a existência dessas profissões, tornando-as dispensáveis para os nossos tempos. Poucos ainda sobrevivem, mas tiveram que se adaptar - as lâminas de barbear e seus aparelhos modernos dispensam qualquer habilidade para o barbear, ainda que não escanhoe como a velha e bem afiada navalha Solinger - adotando outro perfil de atendimento. O mesmo aconteceu com os dedicados tintureiros - literalmente, já não passam mais em nossas casas oferecendo o serviço, tampouco temos a entrega no domicílio.

Por isso, descrever locais, falar das pessoas e relembrar situações vividas - pode até se tornar enfadonho para o leitor, nesse caso peço desculpas! - mas faz um bem danado para a alma do ourinhense ausente e tem se tornado lenitivo para uma vida, embora saudável e sem maiores atropelos, repleta de lembranças e saudade da pacata cidade do interior, que se tornou pujante. Hoje, talvez não guarde mais espaço para experiências e situações simples e prosaicas, como essas que compõem esse texto e a nossa história!

sábado, 5 de maio de 2007

MARIO BRANCO - CIDADÃO ATUANTE

O conheci como funcionário do Centro de Saúde e freguês do açougue do meu pai. A família do casal Mário e Helsinque habitava uma confortável casa da rua Amazonas - com varanda na frente, muitas plantas e amplo quintal nos fundos. Seus filhos "Marinho", Zoé e Yara, conviveram e integraram as gerações dos meus irmãos - eu, apenas observava a beleza das duas jovens.

A par de sua atividade na área da saúde pública - funcionário dedicado e muito respeitado na comunidade - Mário Branco interveio, durante décadas, praticamente em todas as manifestações da comunidade ourinhense - tanto política, como cultural e esportiva..

Um dos primeiros textos publicados na Folha de Ourinhos, descrevi a paixão de dois torcedores pelo Esporte Clube Operário - sob o título "Exemplos de Torcedores" - um daqueles personagens apresentava o perfil do Mario Branco de outrora, ainda boêmio e irreverente. O outro, por questão de eqüidade tenho que revelar, era o senhor Evaristo, outro dedicado servidor dos Correios - do tempo que não havia carteiro, tínhamos que ir retirar as correspondências e os jornais diretamente no guichê da agência.

Já contei aqui, mas é sempre oportuno repetir - costumo dizer para os meus filhos, quando reclamam que estou repetindo a mesma história, que é para eles não esquecerem - ambos eram torcedores fanáticos do Operário e quando o time jogava, o resultado pouco interessava, era motivo para beberem até de madrugada e no banco da praça cantarolar "..vesti uma camiseta listada e sai por aí . . ." sucesso de Carmen Miranda.

Em outra época, o senhor Mário Branco - anterior ao movimento liderado pelo médico Morales, com participção do ferroviário Goezinho e do Ari Toledo, antes do sucesso cantando as misérias do nordestino, e outros... - mobilizou o círculo cultural ourinhense, dando ensejo à criação do primeiro grupo de teatro amador da cidade. Certamente, ainda existirão pessoas que tenham participado ou pelo mesmo testemunhado esse período fértil da cultura ourinhense.

A política foi outra paixão do ilustre ourinhense, sempre participativo - as fotografias do amigo José Carlos, na coluna Recordando...retratam ! - com sua indefectível gravata borboleta, sempre atento aos movimentos populares, mas suficientemente crítico para não se deixar cair na tentação de se expor em disputas menores - como a preservar a sua inteligência e concepção de vida.

Certa ocasião, passando pelo açougue do meu pai fez a encomenda da carne de costume, mas pediu que fosse entregue em sua casa. Dizia estar a caminho da Delegacia de Polícia com a disposição de falar com o delegado sobre a "Congada". Para quem não conhece:- trata-se de uma manifestação da cultura e religiosidade africana, que o pessoal da "Gruta Baiana", tradicional família da rua Pedro de Toledo, costumava realizar com competência e seriedade.

A aguçada curiosidade do meu irmão Aureliano, ainda adolescente, o levou a tomar da bicicleta e acompanhar a comissão até a delegacia. Ainda na porta, o delegado de polícia ouviu as ponderações do prestigiado cidadão - Aureliano assegura, mesmo a distância ter ouvido o delegado recomendar que não teria problema realizarem os cultos, desde que não batessem o tambor até muito tarde.

Com isso, o senhor Mário Branco que já havia participado do maior feito do Esporte Clube Operário no Campeonato de 1949 - quando o time capitaneado pelo goleiro Gimenez, sagrou-se campeão do interior - depois deflagrado e liderado as primeiras iniciativas do teatro amador em Ourinhos; daquela vez empenhava-se na defesa do sincretismo religioso - sempre presente nas manifestações culturais ourinhense.

Espero que ainda hoje, seus descendentes mantenham viva a tradição e continue realizando a "Congada" - importante manifestação da negritude ourinhense, sempre representada pela inesquecível e saudosa "Gruta Baiana".

Aliás, a diversidade cultural do senhor Mário Branco era conhecida e já vinha demonstrada pelos nomes escolhidos para suas filhas Zoé e Yara, não só pela beleza e sonoridade, mas certamente como homenagem e respeito à cultura indígena.

Como no samba - morre o homem e fica a fama !

domingo, 22 de abril de 2007

ENFIM, UM BOM NEGÓCIO

Foi mais ou menos com essa disposição que os dois jovens ourinhenses resolveram colocar em prática um projeto. Não tinha como dar errado, já que detinham todas as etapas da atividade - desde a fabricação do produto até a sua venda e distribuição, no atacado e varejo.

Jovens de boa formação, com alguma experiência de vida, oriundos de famílias tradicionais no ramo de comércio. Um deles, com ascendência japonesa, tinha bom conhecimento do Estado do Paraná onde passou algum tempo jogando futebol e nessas andanças aprendera o segredo do negócio. O outro, ao contrário sempre manteve a proximidade com o pai - dono da receita da melhor bisteca da cidade - concluiu os cursos básicos então existentes na cidade e recentemente havia deixado o emprego na antiga Sanbra.

A sociedade brasileira passava por um período conturbado e a economia dava sinais de inanição, sendo as oportunidades de emprego escassas. Entre uma rodada e outra de "vida" ou "mata-mata" - no snoocker do Yamaguti - surgiu a idéia. Evidente que a iniciativa foi do "japonezinho" que guardava a fórmula para fabricação do produto e dava sinais de conhecer o mercado onde demonstrava - mesmo não admitindo - já ter atuado.

No começo foi motivo de gozação e levada na brincadeira como proposta até certo ponto inaceitável para o nível daquelas pessoas. No entanto, o tempo foi passando e as dificuldades para obter um bom emprego foi escasseando, que o projeto voltou a ser discutido. E não é que acabou sendo colocado em prática !

Consistia na fabricação de "veneno para matar insetos" - com a capacidade para combater todos os tipo de insetos, embora nunca foi comprovado - mas sua eficiência no combate às "baratas" teria ficado demonstrado. O produto, embalado em papel de seda, na forma de "tabletes", exibia a cor de caramelo, com indicação para ser distribuído nos cantos da casa e outros locais estratégicos do imóvel, com propósito de afastar ou eliminar a presença de insetos.

Convencido o freguês, restava demonstrar que o produto não fazia mal à saúde - isso no caso de uma criança, tomada pela aparência e curiosidade, levá-lo à boca - cabia então aos diligentes vendedores, de forma corajosa "lamber" literalmente o produto, como a provar ser inofensivo. Nisso tomavam sempre a cautela de manter uma bala de hortelã - as antigas balas Pipper - sempre na boca, como meio de dispersar o gosto desagradável, assim como, a possibilidade de lhes trazer algum mal-estar, nunca descartada.

Depois de alguns dias - ou seria semanas - os dois amigos retornaram jactando-se do sucesso da empreitada. Discorriam com detalhes sobre o malabarismo que eram obrigados a praticar para a fabricação dos tabletes no quarto dos hotéis e a criatividade para vender o produto - quer nas esquinas, como nos pequenos pontos comerciais. Apenas se negavam a revelar a sua fórmula.

Admitiam que as passagens pelas cidades foram se tornando cada vez mais rápida e sem possibilidade de retorno, já que a eficiência do produto - altamente propagada - não perdurava além de curto espaço de tempo e, como isso, acabaram perdendo prestígio e credibilidade.

Ainda assim, teriam tomado gosto pelo comércio e, mais à frente, utilizando-se de uma Kombi passaram a distribuir uma linha de biscoitos fabricados na região de Campinas, que trouxe melhores resultados - pelo menos já podiam retornar ao local visitado para realizar novas vendas.

As décadas decorridas e a falta de contato me constrangem revelar os seus nomes, mas aqueles ourinhenses que os conheceram e / ou, por ventura, tenham freqüentado os bares de snoocker e outros locais menos afamados da cidade, certamente não terão dificuldades de identificar os dois personagens - a quem reservo essas gratas lembranças.

sexta-feira, 20 de abril de 2007

O ASSISENSE, QUE AMOU OURINHOS

Como ourinhense, morei, trabalhei e convivi com o povo assisense durante quinze anos - meus três filhos nasceram em Assis - e, com isso, percebi as nossas diferenças e também aprendi a gostar da cidade, sabendo destacar as suas qualidades.

Meus primeiros plantões de final de semana, ao contrário dos demais policiais - que já moravam na cidade - foram cumpridos entre o prédio da delegacia e a carceragem, onde conheci o senhor José Scarabello. Carcereiro à antiga - enérgico, cumpria e fazia cumprir o regulamento da cadeia. Atrás daquele homenzarão, alto e forte, com a cara de poucos amigos, encontrei uma figura humana admirável, receptiva, afável e amiga. Foi ele quem me contou a história do Luzo Santana, jogador de baralho inveterado, que não aceitava o cheque - emitido pelo próprio, como cacife - no momento de resgatar as fichas. Também aprendi com o velho Scarabelllo tomar coalhada no café da manhã.

Mais adiante travei conhecimento com seus filhos (cinco homens) mas foi com o Joaquim Scarabello Neto, a quem o pai se referia com orgulho antevendo seu sucesso profissional, que mantive contato mais estreito - posso dizer que fomos amigos. Além do trabalho, ainda tínhamos em comum o prazer pelo esporte, mesmo com embates memoráveis entre as Seccionais de Ourinhos e Assis - pura, idiossincrasia !

Acompanhei seus primeiros passos como delegado de polícia, ainda no município de Echaporã, onde angariou o respeito e simpatia da população. Jactava-se de ter se formado na Faculdade de Direito de Jacarezinho - já despontando como umas das melhores escolas jurídicas do país. Ainda assim, não se opunha em "trocar figurinha" e pedir sugestão sobre seus primeiros trabalhos - aliás, ainda guardo entre papéis amarelados um rol de expressões latinas que ele me passou.

Quando surgiu a oportunidade de se transferir para Maracaí, possibilidade de galgar classe superior, veio nos consultar - Alberto Sampaio, eterno escrivão de Maracaí, Antônio Melfa Neto e Reinaldo Pinheiro da Silva - sobre a conveniência da mudança com tão pouco tempo no cargo. É certo que já alimentava o projeto de trabalhar em Ourinhos, onde iniciou sua carreira policial e tinha como referência o perfil do delegado Cássio Leite, primeiro Seccional da cidade.

Naquela altura, já casado com Marilene, filha do senhor Nabor - introduziu o genro na arte de pescar - tinha a enfrentar a resistência do avô, contrário à mudança para Ourinhos. Nabor não se conformava ficar longe dos netos, primeiro o Ricardo e depois o Fábio. Folgo em saber que ambos seguiram a trilha do pai e tornaram-se policiais civis.

Embora tivesse o doutor Cássio Leite como referência, com quem trabalhara nos seus primeiros anos na Polícia Civil, Joaquim Scarabello encontrou um jeito pessoal de fazer polícia. Sua dedicação integral à profissão, capacidade de agregar, disposição para o diálogo sem perder a liderança, criando e inovando na arte de administrar recursos escassos, acabou produzindo uma nova filosofia de trabalho - calcada na honestidade, retidão de caráter e coragem para enfrentar as agruras do cargo e da vida. Por não admitir ingerência política ou de qualquer outra natureza, tornou-se referência no âmbito da polícia judiciária paulista - evidente que também contrariou interesses.

Com isso adquiriu a admiração e o respeito dos seus pares, bem como, a confiança da população ourinhense e da região, a quem dedicou a sua inteligência e disposição para o trabalho. Foi reconhecido, não só pela forma de ser - sua capacidade de cativar e de fazer amigos alcançou até mesmo eventuais algozes - mas, principalmente, pela sua maneira de agir como cidadão, chefe de família, autoridade pública e amigo !

Apenas lamento que essa mesma atividade policial que abraçamos e honramos, tenha nos levado ao distanciamento na busca de nossos horizontes, acabou dificultando contatos mais recentes - sempre uma celebração à amizade.

Por certo Joaquim Scarabello Neto, com seu jeitão peculiar, combateu o bom combate e deixa a dignidade do seu exemplo de vida !

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